quinta-feira, 29 de dezembro de 2011


Fazendo a mochilinha, indo reinar em Canoa Quebrada!
Paraíso no Ceará.
Feliz 2012 para todos!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Sobrevivi ao natal!


Eu que andava com medo da noite de natal, enfim sobrevivi, pensei que seria realmente dolorosa.
Mas o calor, o afeto da minha mãe, do meu irmão, da minha mulher, da minha família...
Eu tive que me dividir entre três ceias:
Primeiro fui para a casa da minha mãe, logo depois do almoço. Foi tão importante estar com ela e com o meu irmão (depois que o meu pai morreu, nós ficamos muito apegados, mesmo que eu não os veja com frequência, sempre nos falamos por telefone). Antes da ceia, a minha mãe nos lembrou que não deveríamos ficar tristes pelas pessoas da nossa família que se foram este ano. Ela mais uma vez ali (uma fortaleza, não sei como consegue ser tão sensível e tão forte ao mesmo tempo). Eu engoli o meu choro, e comi.
Uma saudade da minha tia... do meu avô. Acho que de alguma forma eles não sairam dos nossos pensamentos nesta noite. Todos nós estavamos alí para nos superar, para nos apoiar, para não deixar o outro se abater.
Logo depois fui até a casa da minha avó (ela também já se foi, mas a casa continua, para todos nós, sendo dela). Lá estavam os meus primos, os meus tios, a minha mãe preta (Maria), todos alí, um silêncio no ar, mesmo com tantos risos, parecia que rir doia em todos nós. Eles colocaram um quadro da minha tia na parede (um lindo quadro, os olhos dela brilham e a pele mostra o viço da juventude que um dia lhe pertenceu).
Alí eu me dei conta, de como eles precisam de mim, e de como eu preciso deles. Eu sinto que quando estou lá, a casa fica mais alegre, todos falam alto e ao mesmo tempo, como se todos ainda estivessem lá... Ai meu Deus!


Já era um pouquinho tarde quando eu fui embora, eu precisava ir, ainda tinha que ceiar com a minha mulher e sua família. Ao chegar lá, outro clima, as coisas mais tranquilas, pude enfim beber um pouco, comer e vir pra minha casa. Na minha cama uma única certeza: eu sobrevivi a esta terrível noite! A noite de natal sem várias pessoas que amo. E também sem ELE..
Mais uma noite de natal esperando, mais uma noite de natal sem. Desejando ter... até quando?

A vida corre dentro de mim, e eu gostaria poder fazê-la andar mais devagar.
O tempo é tão ruidoso, e eu sou tão jovem, mas sei que não serei assim por muito tempo, o mundo aos poucos vai deixando de ser meu.


Eu e Wila em nossa casa dias antes do natal.

Meu recanto

Lali e eu conversando sobre nossas vidas.

Com o meu maninho João, e nosso saudoso vô, natal de 2010

Moi et la mer!


sábado, 24 de dezembro de 2011

A Nudez como Proposição Estética e Política


Não ao nu artístico;
Não ao nu singelo;
Não ao nu com mensagem;
Não ao nu sagrado, impalpável, e inalcançável.
Nu é nu
Uma sentença?
Talvez, mas defender a nudez apenas para ser apreciada como objeto de arte, parece sentença ainda maior.
Constantemente nos fazem elogios feitos com a maior boa vontade a respeito do meu trabalho, entre tais, um me faz tremer na base, justo quando escuto: amei o seu trabalho, a nudez foi trabalhada de forma tão artística... Há outro exemplo que considero ainda mais grave: achei lindo o seu espetáculo, a gente nem percebe a nudez.
Primeiro; não concordo com a possibilidade de usar a arte como pretexto para lidar com uma questão que é nata do ser humano como a nudez, eu não trabalho a nudez, eu vivo a nudez, eu, nós, somos nus. Que tal olharmos para si e percebermos essa condição? A nudez é uma condição do homem, como estar vestido.
Segundo; é no mínimo delicado ouvir de alguém que assistiu a um trabalho de quarenta minutos com quatro pessoas nuas, que ele não tenha percebido a nudez. Será que não teria algo de errado aí¿ Concluo, relacionar nudez e arte é um passo imediato, talvez uma forma de fuga, como não conseguimos lidar com nós mesmos, precisamos da arte como uma possibilidade de aceitação. Aí talvez fique claro que só conseguimos olhar a nudez como algo “digerível” através da arte.
Buscamos outra forma de reaproximação daquilo que nos é dado quando nascemos, e que é retirado logo em seguida: o direito de permanecer nus. Então a arte, provavelmente a manifestação mais forte no homem além da cultura, quando se fala em organização e manifestação do pensamento na sociedade, fica mesmo com o peso de captar tudo que é brutalmente tolhido.
Durante anos a nudez no espetáculo De-vir não foi o assunto mais importante em questão, mas com o passar do tempo, com todos os fedbacks, com a diversidade de reações das platéias, das cidades, dos países por onde passamos, a nudez tornou-se um ponto de grande relevância dentro do trabalho da Dita, um assunto que não deve ser ignorado, ou muito menos ter sua importância diminuída.
Dentro da companhia passamos a lidar com ela de uma forma amplificada, não a considerando somente nos momentos de ensaios. Existe uma necessidade ética com a proximidade do assunto em questão, e este assunto pode ser qualquer outro: as nossas relações com a nossa cidade, e com as cidades, as relações pessoais e de trabalho com o outro, a relação consigo mesmo, e relações políticas. Tudo é político, viver é político, concluímos.
Em um debate em Vitória, logo após uma apresentação do espetáculo, uma garota se contorceu na platéia, ensaiou falar e desistiu, depois um rapaz chegou até nós e nos contou que ela só queria saber o ‘por que de não estarmos depilados’. A pergunta não foi feita diretamente a mim, mas tentei respondê-la comigo mesmo, uma vez que se dependesse de mim as casas de depilação já teriam falido. Então pensei: eu usaria as palavras de um amigo ator, também de Vitória, respondendo em tom debochado a mesma pergunta feita pelo ginecologista de sua mulher: diga a ele que eu não tenho tendências pedófilas, eu quero uma buceta de mulher adulta.
Logo se a pergunta tivesse sido feita na ocasião do debate, eu responderia: eu sou um homem adulto, e adultos têm pelos.
Mas talvez seja leviano permanecer neste lugar de pensamento em um discurso que não deve ser sobre uma questão de gosto pessoal. A razão de não nos depilarmos também é uma escolha estética, como seria se estivéssemos todos depilados. O fato de não retirar os pelos nos aproxima do aspecto mais natural do corpo, e também nos aproxima da nossa condição de animais (condição que negamos a cada momento). Qualquer instância, ação, secreção, ou analogia que nos aproxime aos animais irracionais é imediatamente negada pelo homem. E talvez por isso mesmo seja uma das leituras mais rápidas que o público faça conosco em cena, o público se reconhece em nós, e logo se reconhece animal também (ao falar que as formas criadas no espetáculo lembram bichos.
Partindo deste ponto, fico pensando que ao apresentarmos o “De-vir” e outras peças da Cia. Dita, lidamos com o corpo como um todo, sem qualificar nenhuma parte mais importante que a outra, por exemplo: aqui o cu é tão importante quanto a boca, cada um com a sua função, de forma que um não seja menos importante que o outro. Enquanto a boca é o órgão responsável pela ingestão dos alimentos, é um dos canais da sexualidade no corpo, e responsável pela verbalização do pensamento, o cu é o responsável pelo termino do processo de digestão, logo cu e boca são pontos extremos, e o cu é também um importante canal da sexualidade humana. Então não há outra saída a não ser lidar com o corpo sem grandes pudores, e o fato de mantermos os pelos reforça o olhar sobre os nossos paus, cus e bucetas (não os deixando em último plano). Ao depilar o sexo o tornamos visualmente mais suave, mais discreto, e o que pretendemos aqui é justo colocá-lo em evidência, como parte de um todo.  
Pensar estética, como se pensa política, aqui potencializar a própria exposição do corpo para potencializar o discurso político, e nada disso seria importante se não fosse o desejo maior: de ser de fato o que cada um é.
O pensador francês Jacques Ranciere, afirma que estética e política são dois campos que não se separam, para ele a política é essencialmente estética, está fundada sobre o mundo sensível, assim como a expressão artística. O filosofo desenvolve uma teoria em torno da “partilha do sensível”, conceito que descreve a formação da comunidade política com base no encontro discordante das percepções individuais.
A primeira coisa que solicito de um bailarino que chega à companhia para dançar, é que ele não minta para si, depois como pessoa que conduz a proposta de um trabalho, eu jogo uma serie de possibilidades para que ele se sinta mexido e provocado; eu provoco para ser provocado, e daí em diante esta pessoa passa a trazer material de sua vida para a sala de aula, para dentro do trabalho: a forma como ele vê o mundo, como faz para deslocar o seu olhar diante de algo que normalmente não é visto com clareza pelos outros. Voltando ao Ranciere, eis aqui um pouco da percepção do “sensível”.
O corpo não seria uma questão tão importante no meu trabalho se não fosse em minha vida, costumo dizer que é um acerto de contas com a minha mãe, ela não me deixava dançar quando criança nas festinhas de aniversário, temia que eu pudesse me soltar demais, dá pinta, me vinguei dançando pelado, me expondo ao máximo, e pondo a minha nudez em questão.  É claro que isso é apenas uma brincadeira, trago em meu corpo questões mais pertinentes do que um simples acerto de contas com a minha mãe.  E a razão para defender o nu apenas como nu, já é uma velha questão.
No começo da década eu me sentia absolutamente bombardeado por muitos espetáculos que lidavam com a questão da nudez em Fortaleza, espetáculos que passavam pela Bienal de Dança do Ceará, espetáculos de teatro, e vários trabalhos locais. A maioria me despertava certa resistência, lidando com a nudez de forma bastante superficial, sempre colocando o corpo entre uma meia luz, no estilo ‘mostra mas não muito’, ou usando o mesmo corpo como chamariz de bilheteria. Mesmo muito jovem, eu recebia aquilo como um desserviço a sociedade.
Pensem comigo, as pessoas já recebem uma educação completamente equivocada, castradora, e vão se distanciando da própria matéria com o passar dos anos em suas vidas, e ainda têm que apreciar espetáculos que lidam com uma questão que é um dos grandes tabus da sociedade, de forma que não é real. Foi através desses incômodos que eu me senti estimulado a pensar o corpo de forma diferente da qual fui educado a pensá-lo.
E o espetáculo De-vir foi um grande passo dentro desse processo de me repensar, e de me recolocar diante do outro. Depois do De-vir, veio o INC. (eu e Wilemara Barros, cada vez mais inflamados com os nossos discursos), e depois “O produto de 1ª”, e por fim o “L’après Midi d’un Fauller”, todos trabalhos em que a recorrência da nudez é diretamente relacionada a política. E isso só é possível com um grande esforço de perceber o movimento da vida, o movimento das coisas.
Não há escolhas estéticas nestes trabalhos que não se relacionem com o que somos e pensamos. Nós só dançamos o que pensamos!
Volto mais uma vez ao Ranciere: estética e política são formas de organizar o sensível: de dar a ver, de dar a entender, de construir a visibilidade e a inteligibilidade dos acontecimentos.
Ao falarmos de nudez, ao abrirmos espaço para uma discussão em torno dela, abrimos também espaço para refletirmos sobre uma sociedade que se conhece pouco; que desenvolveu a física, as bio-políticas, a bioarte, a bio, a bio, a bio, pensamos em todas as variações de bio, e nos considerando assunto a parte, quando não superiores a todo entendimento do que se tenha por bio.
Também escuto bons comentários sobre o meu trabalho, desses que a gente quer levar pra casa, guardar de forma especial, certa vez um conhecido após nos assistir me disse: Fauller, eu nunca havia imaginado o meu corpo dessa forma, e eu me reconheci totalmente através dos corpos de vocês, cheguei em casa, e tentei fazer uma posição do balé no espelho (meu amigo é um homem comum, estatura mediana, peso acima dos setenta e cinco quilos,  e hetero), logo isso me deixou com a sensação de que o nosso trabalho tem, de alguma forma, a função de aproximar as pessoas delas mesmas, pois talvez elas ainda não tenham tido a oportunidade de se permitir. E isto é uma grande questão para nós, que trabalhamos diretamente com o corpo, envolve além de política e estética, uma questão ética. Eduardo Kac (um grande performer e bio-artista brasileiro) chamaria de ética performativa: ela nasce junto com a própria concepção da obra.
Eu chamaria de “seja sem medo”. Se pudesse escolher um pilar que nos move dentro da sociedade, desde que acreditamos que a primeira maça foi mordida; alem do amor, do sexo, e do dinheiro, eu escolheria o medo. Somos todos movidos pelo medo, a potência do medo em nossas vidas é avassaladora. Somos do signo de medo com ascendente em medo, e lua em medo.
Portanto, a única forma de desenvolver o sensível é através do desnudamento da alma. Um corpo nu não revela necessariamente o desnudamento de nada, tão pouco do pensamento, e-ou do desejo.
É preciso criar formas de resistência e de existência.

O bailarino Lairton Freitas em ensaio de "De-vir".


A Cia. Dita em ensaio em sala de aula.


Este texto foi escrito originalmente para o "Pensamento Giratório", ação do Projeto Palco Giratório Nacional SESC. Ele foi ponto de partida para uma série de debates e discussões em nossa turnê nacional 2011.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011


Eu ouvi dizer que você se estabeleceu
Que você encontrou uma garota 
e está casado agora


 Feliz Natal!


 


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

sábado, 17 de dezembro de 2011

Adeus Cesária!


Um adeus a uma rainha, a uma diva de verdade! Quantas vezes eu dei aula esse ano ao som da voz dela...
Quantas vezes eu e wila acordamos aos domingos, preguiçosos, ouvindo sua linda voz enquanto o almoço era feito... Saudade do Cabo Verde, terra que amo. Tua voz Cesária fica pra sempre!












Ontem terminou o meu ano de trabalho de 2011.
Foi o fim de algumas semanas de escravidão, eu estava muito sobrecarregado de trabalho, tanto físico quanto intelectual, alternava deliberadamente academia e sala de aula com o escritório da produtora da minha companhia.
Pois bem, o ano foi lindo, nunca viajei tanto, nunca conheci tanta gente maravilhosa, foi incrível conhecer o Brasil.
Que seja de César o que for de César!
E se Maomé não for a montanha, a montanha certamente irá a Maomé.
Agora é me preparar psicologicamente para este terrível período de natal, eu odeio este período! Fico frágil, carente, odeio essa obrigação de ficar feliz, e de parecer que amo todo mundo. Não amo mesmo! Os meus amores escolho eu.
Seguimos!
Agora é tomar tempo pra mim, pro meu quintal, pra minha família, pra minha mulher, pensar com leveza na vida (ela precisa de fé), me perder de frente pro mar. E continuar sonhando que o que eu tanto quero um dia vai chegar.