Resolvi escrever esse texto, por uma inquietação que surgiu durante a semana, talvez na verdade isso venha me inquietando já a algum tempo, e só agora eu tenha decidido dá forma de pensamento a essa “coisita”.
Pois bem, algumas questões e também algumas situações me levaram a escrever novamente sobre a questão da nudez (seria por conta da minha freqüente exposição?).
Na segunda feira iniciei uma oficina de dança sobre analise do movimento, então eu na sala de aula como aluno, rsrs, fazia tempo que não me interessava em fazer nenhuma aula de dança fora da minha companhia, mas precisamente desde o ano passado quando tive o primeiro contato com a performer Eleonora Fabião (pessoa incrívelmente interessante).
Então entro na sala e a professora uma fofa, super gente fina, boa vontade pra caramba...mas não deu pra ir no outro dia. Fiquei meio decepcionado com a turma e o nível das conversas de grupo, todo mundo meio com cara de “bobão”, ninguém parecia trabalhar com dança de verdade, não que eu quisesse que a sala estivesse lotada de bailarinos, sabia que não estaria, mas me dá um troço sabe, pensar que as pessoas que estão pensando dança hoje aqui em Fortaleza são tão distantes da técnica e de vivências diárias de uma construção corporal, e também sei que técnica não é tudo, mas não dá pra fazer dança, e achar que é bailarino, sendo na verdade psicólogo, até pode, mas não dá pra ser bailarino, sem nenhuma formação, e dizer: ah eu danço, porque danço! Danço porque gosto de soltar o corpo...porque acho que todo mundo pode dançar! Todo mundo pode e deve dançar, mas é difícil quando “esse todo mundo” quer ditar ou mapear o pensamento de dança feito naquele local, me senti meio idiota diante daquelas pessoas, experimentando algo que vi há dez anos... então as questões ainda são as mesmas?
Quero pensar que as minhas não, nem a minha dança.
Enfim, tudo isso é só para falar de uma coisinha que ouve no banheiro (risos).
Entrei, tirei a minha roupa, e logo em seguida entra outra pessoa, estimado conhecido (que segundo ele, dança porque leu Deleuze, recentemente ele foi reprovado em uma aula prática de uma audição para um curso de nível técnico. Então!). Me vê pelado já vestindo a roupa e diz: só o Fauller mesmo pra ficar pelado dentro de um banheiro público. E eu respondi: querido, isso aqui é um banheiro masculino, eu não tenho nada que os outros homens que possam entrar aqui também não tenham, e além do mais eu sou um bailarino, não tenho problemas com ficar pelado. Ele retrucou: ah, então quer dizer que ser bailarino significa tirar a roupa em qualquer lugar, isso aqui é uma repartição pública. E eu finalizei: olha só, isso aqui é o SESC, é um lugar burocrático sim, mas também é um lugar de arte, tem um teatro aqui dentro, muitos artistas passam por aqui, então é mais que hora do SESC pensar também como um lugar de arte, isso significa pensar maior, sem tantos pudores, você entendeu agora? Ou ainda não?
Então saí, fiquei me alongando no começo da aula, e pensando nisso, pensando: poxa isso não é colocação de uma pessoa de arte, que vive de arte, só podia vir de um burguesinho que de repente decidiu fazer arte pra passar o tempo. Como eu me incomodo com uma colocação babaca dessas. Será que a nossa dança vai sobreviver a partir de pessoas com essas cabecinhas? Figura tosca que não sabe nem onde é o próprio cu.
Outro dia um amigo viu o meu blog, e comentou sobre as minhas fotinhas, ele disse que foi o que ficou de mais forte, e então eu perguntei: você leu algum texto? E ele me respondeu que não. Foi o que eu concluí, já sabia que não tinha lido nada. Outra pessoa de dança, dessa vez um excelente bailarino.
E aí, como fica a relação com o próprio corpo? Consigo mesmo? É assustador pensar que as pessoas encaram o corpo como algo distante delas, existe uma negação total que atinge todas as camadas sociais, e é um problema que vai desde a educação primaria e segue por toda a vida. Tantas pessoas com sérios problemas na coluna por uma questão de postura, recorrente de timidez, de uma educação castradora, tanta gente louca virando padre, se tornando pedófilo, ou estuprador por falta de espaço com a própria sexualidade, nossa muita gente doente mesmo.
Talvez em função tudo isso os meus trabalhos são pensados como contra ponto, como escape mesmo. Penso nos meus trabalhos, e consigo vê-los como um pequeno ponto de luz em meio a toda essa escuridão da ignorância. São em momentos como o vivido recentemente no Rio de Janeiro, que logo após a apresentação vejo no debate um monte de adolescentes dialogando conosco (elenco do espetáculo) e concluindo que a nudez não é algo “degradante”, saio do teatro me sentindo com a minha missão cumprida. Sinto-me como um evangelizador, pregando que as pessoas podem e devem se tornar mais próximas de si mesmas, só dessa forma é possível chegar até o outro, quando enfim, podemos chegar a nós mesmos. E acredito que o meu trabalho vai sempre encontrar formas de ecoar essas questões.
Lendo esses dias um livro do Michel Onfray (pensador francês) chamado “A potência de existir”, fico pensando sobre a “potência da nudez”, e sobretudo sobre a “potência da minha nudez”, eu quero e tenho muito o que dizer com ela, toda minha fixação estética a qual tenho submetido as minhas pesquisas de composição giram em torno da nudez, e seus desdobramentos políticos, éticos, sociais, filosóficos...
Brinco com algo que escuto frequentemente aqui na minha cidade, de vez em quando alguém diz que corro o mundo, que o meu trabalho é apresentado na Europa porque eu mostro a bunda, rsrs.
É, brinco de fato dizendo que vou dominar o mundo com a bunda, nada mais apropriado para um brasileiro (putz quer pensamento mais colonizado que este?).
Alguns errinhos de escrita, vi agora, mas estou um pouco cansado, amanhã corrijo.