segunda-feira, 6 de setembro de 2010


Saudade desse tempo quando eu era criança, uma saudade gostosa, pois eu não gostaria de voltar atrás.
Minha mãe sempre presente na minha vida, mesmo trabalhando o dia inteiro, nunca se ausentou, sempre fazia um esforço para ir as reuniões do colégio, sempre cortava as minhas unhas no fim de semana (cortava no tronco, eu passava uns dois dias com as unhas doendo, rs,mas era para não crescer na semana a ponto de acumular sujeira), e ensinava o meus deveres de casa aos sábados pela manhã.
Quando ela estava no trabalho era minha avó materna e minha prima Maria quem cuidavam de mim, eu era mimado até as últimas consequencias, posso dizer que tenho várias mães. E minha mãe de verdade, Maria José Silva de Freitas sempre amou a fotografia, ela desejava que eu um dia fosse fotografo, acho que aos poucos esse desejo vai se tornando fato. Lembro que me fotografava todos os finais de semana (eu disse todos), isso me dava margem, na medida em que ia crescendo, para começar a pensar nas roupas, nas poses, e caras e bocas do fim de semana seguinte (risos).
Lembro que em alguns aniversários não tinhamos dinheiro para um bolo, mas minha mãe sempre dava um jeito de me fotografar (a mim e ao meu irmão João, seis anos mais novo), ela nos fazia entender que um bolo não era tão importante quanto crescer e lembrar daquele dia... daquele momento através das fotografias.
Eu tive uma infância incrível, tive quase todos os brinquedos que sonhei, estudei nos melhores colégios (minha mãe e meu pai se matavam de trabalhar pra isso), e sempre estava cercado de primos, tios, avós....
Lembro também de quando chegava da escola pela manhã, e nem tirava a farda, apenas os "Kichutes", e ficava deitado no sofá assistindo o Balão Mágico, o Daniel Azulai, o Bozo, o Chaves, o Jaspion, a Xuxa, nossa...eu até esquecia de comer, e pra que tirar a farda? Minha prima gritava: FAULLIMMMM, VEM ALMOÇAR... e eu respondia: JÁ VOUUUUUUU, e nunca ia, então ela trazia o meu almoço com ódio, e depois o suco (ki-suc) também.

domingo, 5 de setembro de 2010

Ready made, antropofagia e brasilidade

Um dos textos que li durante o processo de construção do meu solo "L'après Midi d'un Fauller", minha apropriação sobre o título da obra do bailarino russo Nijinsk "L'après Midi d'un faune".


O ready made de Marcel Duchamp, a antropofagia de Oswald de Andrade e a construção de uma identidade artística brasileira.
Não há dúvidas que Duchamp é um dos maiores artistas do séc. XX. Suas atitudes e gestos desmistificaram a arte e provaram que arte e vida podem se relacionar antecipando o conceito de bricolagem que chegou até a música pop na forma de “do it yourself” que é a origem da verve do punk rock. O ready made pressupõe uma incorporação de algo não artístico que é trazido para a esfera do artístico pelo simples gesto do artista, que escolhe e delibera sobre o que é e o que não é arte, mas o próprio ready made não é arte, já que seu objetivo é a ironia e a crítica.
Quando Duchamp desce a arte de seu pedestal etéreo para o chão da vida, a arte se “democratiza” como previu Walter Benjamin e, o que veio a se chamar música pop, de um jeito ou de outro, legou o espírito duchampiniano e nos chegou com as vantagens e desvantagens da reprodutibilidade técnica.
Esta incorporação de elementos não artísticos se desdobrou, na arte contemporânea, em incorporação de elementos de outras obras para comporem as novas obras, promovendo um rico diálogo entre os artistas e caracterizando a arte moderna e contemporânea pelo meta-discurso.
Quando, no final da década de vinte, Oswald de Andrade propõe uma antropofagia artística, há uma desmistificação da idéia segundo a qual construir uma identidade nacional seria retomarmos apenas os primeiros habitantes dessa terra: os índios. Partindo desta proposta, Oswald cria o conceito de antropofagia, no qual nossa cultura devora o estrangeiro e, a partir dessa incorporação (um corpo que devora o outro), há uma constituição artística autêntica.
Os índios brasileiros nunca praticavam antropofagia para se alimentarem, mas sim com a intenção de incorporar o inimigo, reconhecendo suas virtudes e desejando obtê-las por meio deste ato. Este seria o principal traço de uma cultura tipicamente brasileira, o colonizado devora o colonizador: na arte os papéis se invertem. Como disse Tom Zé, “a bossa nova inventou o Brasil e teve que fazer direito”.
É esta a grande inovação que a geração da ditadura nos legou: No auge da repressão, o espírito da modernidade artística chega à música pop/popular brasileira e, desprovido de bons modos, devora os estrangeiros, incorporando suas virtudes do modo mais brasileiro. Oswald tinha razão: a brasilidade sempre esteve no canibalismo, o Brasil é junção, mistura, incorporação, em uma palavra: antropofagia. Do mesmo modo que, por exemplo, o congado mineiro tem ritmos africanos para louvar Nossa Senhora do Rosário [os santos europeus convivem com orixás africanos] Gilberto Gil e Os Mutantes utilizaram guitarras elétricas para os puristas da M.P.B no Domingo no Parque: chuva do mesmo bom sobre os caretas. Sempre fomos miscigenação, sempre fomos inclassificáveis como disseram Arnaldo Antunes e Chico Science.
O tropicalismo traz a antropofagia da esfera da literatura/filosofia para a cultura de massa, incorporando elementos da música pop do hemisfério norte, e traduzindo-os em uma nova linguagem. A partir daí a música pop/popular brasileira aprendeu a devorar. A tropicália, no final dos anos sessenta, inicia o banquete proposto por Oswald de Andrade. Já a década de oitenta quase não devorou, apenas engoliu e, nos anos noventa, temos uma retomada da antropofagia.
E assim o tropicalismo ensinou: decifra-me, ou te devoro. Incorporação de tudo o que pulsa, que vive, do rock aos regionalismos, da inovação absoluta da bossa nova de João Gilberto, até o iê iê iê romântico mal deglutido da jovem guarda.
O Virna Lisi, grupo mineiro, pioneira e magistralmente propôs um rico diálogo entre rock , samba e experimentações fonéticas, o que antecipou e, sem dúvidas, influenciou propostas artísticas bem sucedidas comercialmente, como os Raimundos, e bem sucedidas artisticamente, como o movimento Manguebeat. Chico Sciense emblematicamente simbolizou o movimento com a parabólica fincada na lama do manguezal. E os pernambucanos do Manguebeat reinventaram a música pop/popular do Brasil devorando os estrangeiros e divulgando a cultura do mangue para o mundo.
Essa marca da modernidade deixada por Duchamp nos legou a atitude característica do contemporâneo: a paródia, a apropriação, o diálogo, a arte que fala de si mesma. O Brasil soube incorporar estes elementos de forma única e podemos senti-la por toda parte. Desde, por exemplo, as experiências de djs que utilizam trechos de canções da black music norte americana até Adriana Calcanhoto, que confeccionou uma música utilizando somente fragmentos de canções de Caetano Veloso para criar uma nova canção intitulada “vamos comer caetano”.
Se a música baiana tem como característica principal, além das percussões, a guitarra elétrica; se os músicos do clube da esquina dizem amar os Beatles e se a bossa nova incorporou elementos do jazz e vice versa, isto significa que o Brasil dialoga de igual para igual com o hemisfério norte, ao menos em termos artísticos e, no século vinte, acompanhou plenamente as vanguardas mundiais. O manifesto da poesia pau-brasil de Oswald de Andrade foi escrito no mesmo ano do manifesto surrealista de Breton, 1924.
O movimento tropicalista delineou os caminhos da música brasileira e abriu portas para experimentações abalando os pilares da conservadora cultura de massa. Essas ousadias nos proporcionaram incríveis propostas artísticas, desde bandas como Secos & Molhados que até mesmo inspiraram o que veio a ser o grupo Kiss, a partir da famosa recusa de Ney Mato Grosso em participar, até a pulsante atmosfera contemporânea de bandas e artistas independentes que optam pelo risco, pela autenticidade, pela independência eminentemente criativa, devorando o que lhes interessa da cultura de massa e transformando isso em boa música pop/popular. Para exemplificar cito artistas que estou ouvindo ultimamente e que endossam meu argumento: O Vanguart de Cuiabá, O Seychelles de São Paulo, o borTam, Pedro Morais e Batucanto de Belo Horizonte, entre tantas outras...


Francesco Napoli
Texto publicado originalmente no jornal "O Cometa Itabirano" em Julho de 2008.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

As músicas que eu escuto não tocam na rádio - 02

Quando me roubar um beijo, me beije eletronicamente, pois eu sou Hi-Tech!

A nudez como ferramenta estética e política


Resolvi escrever esse texto, por uma inquietação que surgiu durante a semana, talvez na verdade isso venha me inquietando já a algum tempo, e só agora eu tenha decidido dá forma de pensamento a essa “coisita”.
Pois bem, algumas questões e também algumas situações me levaram a escrever novamente sobre a questão da nudez (seria por conta da minha freqüente exposição?).
Na segunda feira iniciei uma oficina de dança sobre analise do movimento, então eu na sala de aula como aluno, rsrs, fazia tempo que não me interessava em fazer nenhuma aula de dança fora da minha companhia, mas precisamente desde o ano passado quando tive o primeiro contato com a performer Eleonora Fabião (pessoa incrívelmente interessante).
Então entro na sala e a professora uma fofa, super gente fina, boa vontade pra caramba...mas não deu pra ir no outro dia. Fiquei meio decepcionado com a turma e o nível das conversas de grupo, todo mundo meio com cara de “bobão”, ninguém parecia trabalhar com dança de verdade, não que eu quisesse que a sala estivesse lotada de bailarinos, sabia que não estaria, mas me dá um troço sabe, pensar que as pessoas que estão pensando dança hoje aqui em Fortaleza são tão distantes da técnica e de vivências diárias de uma construção corporal, e também sei que técnica não é tudo, mas não dá pra fazer dança, e achar que é bailarino, sendo na verdade psicólogo, até pode, mas não dá pra ser bailarino, sem nenhuma formação, e dizer: ah eu danço, porque danço! Danço porque gosto de soltar o corpo...porque acho que todo mundo pode dançar! Todo mundo pode e deve dançar, mas é difícil quando “esse todo mundo” quer ditar ou mapear o pensamento de dança feito naquele local, me senti meio idiota diante daquelas pessoas, experimentando algo que vi há dez anos... então as questões ainda são as mesmas?
Quero pensar que as minhas não, nem a minha dança.
Enfim, tudo isso é só para falar de uma coisinha que ouve no banheiro (risos).
Entrei, tirei a minha roupa, e logo em seguida entra outra pessoa, estimado conhecido (que segundo ele, dança porque leu Deleuze, recentemente ele foi reprovado em uma aula prática de uma audição para um curso de nível técnico. Então!). Me vê pelado já vestindo a roupa e diz: só o Fauller mesmo pra ficar pelado dentro de um banheiro público. E eu respondi: querido, isso aqui é um banheiro masculino, eu não tenho nada que os outros homens que possam entrar aqui também não tenham, e além do mais eu sou um bailarino, não tenho problemas com ficar pelado. Ele retrucou: ah, então quer dizer que ser bailarino significa tirar a roupa em qualquer lugar, isso aqui é uma repartição pública. E eu finalizei: olha só, isso aqui é o SESC, é um lugar burocrático sim, mas também é um lugar de arte, tem um teatro aqui dentro, muitos artistas passam por aqui, então é mais que hora do SESC pensar também como um lugar de arte, isso significa pensar maior, sem tantos pudores, você entendeu agora? Ou ainda não?
Então saí, fiquei me alongando no começo da aula, e pensando nisso, pensando: poxa isso não é colocação de uma pessoa de arte, que vive de arte, só podia vir de um burguesinho que de repente decidiu fazer arte pra passar o tempo. Como eu me incomodo com uma colocação babaca dessas. Será que a nossa dança vai sobreviver a partir de pessoas com essas cabecinhas? Figura tosca que não sabe nem onde é o próprio cu.
Outro dia um amigo viu o meu blog, e comentou sobre as minhas fotinhas, ele disse que foi o que ficou de mais forte, e então eu perguntei: você leu algum texto? E ele me respondeu que não. Foi o que eu concluí, já sabia que não tinha lido nada. Outra pessoa de dança, dessa vez um excelente bailarino.
E aí, como fica a relação com o próprio corpo? Consigo mesmo? É assustador pensar que as pessoas encaram o corpo como algo distante delas, existe uma negação total que atinge todas as camadas sociais, e é um problema que vai desde a educação primaria e segue por toda a vida. Tantas pessoas com sérios problemas na coluna por uma questão de postura, recorrente de timidez, de uma educação castradora, tanta gente louca virando padre, se tornando pedófilo, ou estuprador por falta de espaço com a própria sexualidade, nossa muita gente doente mesmo.
Talvez em função tudo isso os meus trabalhos são pensados como contra ponto, como escape mesmo. Penso nos meus trabalhos, e consigo vê-los como um pequeno ponto de luz em meio a toda essa escuridão da ignorância. São em momentos como o vivido recentemente no Rio de Janeiro, que logo após a apresentação vejo no debate um monte de adolescentes dialogando conosco (elenco do espetáculo) e concluindo que a nudez não é algo “degradante”, saio do teatro me sentindo com a minha missão cumprida. Sinto-me como um evangelizador, pregando que as pessoas podem e devem se tornar mais próximas de si mesmas, só dessa forma é possível chegar até o outro, quando enfim, podemos chegar a nós mesmos. E acredito que o meu trabalho vai sempre encontrar formas de ecoar essas questões.
Lendo esses dias um livro do Michel Onfray (pensador francês) chamado “A potência de existir”, fico pensando sobre a “potência da nudez”, e sobretudo sobre a “potência da minha nudez”, eu quero e tenho muito o que dizer com ela, toda minha fixação estética a qual tenho submetido as minhas pesquisas de composição giram em torno da nudez, e seus desdobramentos políticos, éticos, sociais, filosóficos...
Brinco com algo que escuto frequentemente aqui na minha cidade, de vez em quando alguém diz que corro o mundo, que o meu trabalho é apresentado na Europa porque eu mostro a bunda, rsrs.
É, brinco de fato dizendo que vou dominar o mundo com a bunda, nada mais apropriado para um brasileiro (putz quer pensamento mais colonizado que este?).


Alguns errinhos de escrita, vi agora, mas estou um pouco cansado, amanhã corrijo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

E hoje eu acordei...


...pensando em te matar de amor, ou de dor!

Para serem vistas ao som de Fever Ray (Now's the only time i know)

Corpo: abrigo da cidade

Um convite para uma percepção diferente sobre a cidade de Fortaleza.
Através de estruturas de composição do espaço (por meio da dança) e de composição de imagens (por meio da objetiva).
Podemos entender aqui o corpo como um reservatório de informações, experiências, e vivencias colhidas e sofridas por cada um em sua relação com a (s) cidade (s). Cada corpo tem seu histórico único e intransferível, logo corpo e cidade nunca cessam seu dialogo.
Lambuzamos nossos corpos com protetor solar fator 30, nos munimos com chapéus e óculos escuros, e fomos ao encontro da Fortaleza Bela.
As fotografias que se sucedem captam alguns pontos turísticos, prédios, casarões, fachadas e praças da “Mega-Vila-Metrópole do Nordeste”, e outros lugares nem tão turísticos assim. O objetivo é justo olhar a cidade com outros olhos, captá-la através de outra sensibilidade.


Pois aqui não há forró, coqueiros, baião de dois, jangada, humor, mulher rendeira, praia, e nem chapéu de couro. Mas sim corpos que foram criados nestas bordas.



Residência Coreográfica de Fauller e Cia. Dita
De 27 de setembro a 01 de outubro
De 14 as 17h
SESC Iracema
Informações e inscrições: Núcleo Formativo Dragão do Mar