quarta-feira, 28 de julho de 2010
terça-feira, 27 de julho de 2010
Obviedades Intransferíveis
No início de 2008, eu estava querendo reunir a Cia. Dita para criarmos um trabalho em que o movimento fosse a principal questão. Eu queria me desafiar, e desafia-los a elaborar um espetáculo em que pudessemos nos mostrar na melhor forma física. Eramos quatro bailarinos, todos técnicos, todos com uma boa base clássica, e já fazia algum tempo em que não nos sentiamos incentivados a criar algo com "tanto movimento". Na verdade vinhamos de anos e anos, de trabalho no De-vir, estavamos muito pressos a aquela estrutura de trabalho, e também muito acostumados a trabalhar nus, foi um desafio nos sentir bem ventindo roupas. Aliás, vestir roupas em cena foi muito estranho, e foi realmente uma das partes mais difíceis de compor. E ainda assim hoje quando vejo as fotos ou o video do trabalho, digo: putz! Que merda esse figurino! Mudaria quase tudo. Mas não será mudado, nada do que ficou irá mudar, pois "Óbvio" é definitivamente um assunto encerrado na minha carreira. Por vários motivos: Primeiro, não me vejo mais dançando assim, nem vejo uma interprete do tamanho da Wilemara Barros dançando nas pontas como se ainda tivesse que provar alguma coisa a alguém. Segundo, já provamos que além de tirar a roupa também sabemos dançar, sei o quanto essa afirmação é infantil e pode parecer ingenua. Mas na época, estavamos um pouco cansados com todo mundo, dizendo que eu só ia pra Alemanha porque tirava a roupa, ou que tudo acontecia pra mim porque eu mostrava a minha bunda, então resolvi cair na provocação e criar um trabalho tecnicamente muito dificil de outros interpretes na cidade dançarem. Depois convidei pessoas importantes também na cidade para assistir ao nosso "trabalho técnico". Vejam posso mostrar a bunda e ainda ser técnico (e pior, vejam o que a minha bunda já gerou pra minha vida, e pra dança do Ceará).
De todos eu era o tecnicamente mais fraco, por que será que sempre o coreógrafo é o pior bailarino? E também o que tem o movimento mais selvagem? hahahaha. De qualquer forma, tive uma excelente base de técnica clássica durante dois anos com uma mestra que hoje mora em Roterdam (Holanda), ela sim, me ensinou tudo quando eu fui ao seu encontro com os joelhos quebrados por fazer aula de forma errada. Com essa base, de tão sólida, hoje eu poderia corrigir o Nijinski, se fosse o caso, sem me intimidar,kkkkkkkkkk. Então, dentro desse contexto pude reunir a minha companhia pela primeira vez para iniciar outro processo, e também ter conosco um bailarino convidado Lairton Freitas.
Nós passamos quase todo o ano de 2008 compondo o trabalho, mais ou mennos oito meses, e logo depois nossa temporada de estréia, primeira e última.
Confesso que isso foi a parte mais difícil de assimilar, fiquei esses ultimos dois anos ainda sem entender muito bem, porque viver uma experiência única de trabalho, de vida com algumas pessoas, que você julga especiais, e depois tudo ruir. Depois de quase um ano de trabalho, Reinaldo Afonso me disse por telefone, e só depois que eu liguei, que não queria mais dançar, não entendi por muito tempo porque me fez perder tanto tempo com ele, quando eu poderia ter vivido essa experiência com outro bailarino. Outro bailarino na cidade poderia ter aproveitado melhor tudo o que vivemos, e tambem ter sido pago de forma digna, uma vez que ninguém trabalhou de graça, estavamos ganhando dinheiro público, e isso foi o que me deixou mais furioso.
Não importa o tempo que ficamos em um determinado lugar, só ficamos o tempo que é para ficar. O que realmente importa é a forma como saímos...é preciso saber sair, para depois, se um dia for o caso, poder voltar.
Demorei muito tempo para conseguir rever essas fotos, para conseguir assistir ao vídeo do trabalho, nossos vídeos em sala de aula...mas agora já superei, meu trabalho já se encontra reestruturado novamente.
Acho que o ano de 2008 foi um momento importante para a gente começar a se perceber como companhia, grupo, coletivo de pessoas.
E o "Óbvio"era justo sobre isso. Sobre as relações que cada individuo tece com e dentro de um coletivo. Se haviam muitas piruetas, muitos saltos mortais, e passos dificeis de serem executados, o objetivo e forte desejo, era que tudo isso pudesse ser diluído pelas nossas trajetorias individuais e pela nossa capacidade de pensar, de propror uma composição para os cinco, nós cinco.
Cada exercício, cada café tomado na minha casa, cada centavo tirado do meu bolso, enquanto o dinheiro do edital não saia ( foram muitos meses de espera), me fez pensar nas pessoas que estavam em minha volta, nessas pessoas que eu havia escolhido, porque eram putas bailarinos, e porque eram putas seres humanos, gente de verdade.
Acho que não tenho muito o escrever mais, já tentei remontar o "Óbvio" com outras pessoas, iniciar um novo processo, e nada. Como substituir essas criaturas, esses deuses que eu criei? Não, não é possível, não foi, e nem será possível. Pois aquela foi uma experiência única, vivida por Marcelo Hortêncio, Wilemara Barros, Lairton Freitas, Reinaldo Afonso e Fauller. E não será vivida por mais ninguém, nem que eu queira...o momento é outro. E o nosso TEMPO intransferível.























































domingo, 18 de julho de 2010
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Cada vez mais NU (sobre a recorência da nudez na minha vida e no meu trabalho)
Já faz mais ou menos um ano, que ao sair de uma aula fui questionado por uma colega com a seguinte pergunta: Fauller, tu não tem vergonha de por aquelas fotos tão explicítas no teu blog? E eu de imediato respondi com outras duas perguntas: E por que eu deveria ter? Elas não são bonitas? Ela retrucou dizendo: são, não é isso, é que eu acho que é muita exposição, todo mundo pode ver, copiar,etc. E eu finalizei a conversa apenas dizendo: Eu sei exatamente o que eu quero com o meu blog, sei do meu lugar no mundo como pessoa e como artista, não estou preocupado com esses por-menores. Dissemos até logo, e seguimos embora.
Mas isso ficou forte no meu pensamento, fui embora pensando, poxa, que pergunta, bem típica de quem vivi em uma província, pensei. Se uma pergunta dessas vem uma artista, imagina o que as pessoas ditas "comuns" pensam. Pensei que aqui na minha cidade (Fortaleza)quase sempre as pessoas teem poucas referências literárias, veem poucas exposições, leram poucos livros, biografias, e o mais grave, pouca experiência de vida, não conhecem o mundo (isso não é culpa de ninguém, nem deve ser visto como um problema), então, embora eu tenha amigos que são realmente cultos, é difícil as vezes dialogar.
As vezes quero falar de um pintor com um bailarino, mas ele não sabe quem é, ou de um tipo de luz com um iluminador, mas ele nunca viu. Me sinto meio sozinho, procurando alguém com quem possa ter uma conversa com um nível mais elevado, sobre cultura, arte, filosofia, politica, e não sobre quem está se graduando em odontologia, ou comprando um carro 4 por 4.
Lá fora essa questão é muito bem resolvida, você faz da sua vida o que bem quer, e pronto! Simples assim!É uma noção de individualidade muito bacana, sempre respeitada, só me incomoda quanto extrapola e passa a ser individualismo, coisa bem diferente.
Pois bem, gosto de pensar que antes de tudo a minha nudez é política, mesmo quando ela soa como putaria, ou mero exibicionismo, eu não me importo, é uma forma de dizer que o corpo pode e deve ser visto de outra forma, mais tranquila!Sem conotação negativa, o corpo é um reservatório de tantas informações, de tantas estórias e experiencias, porque negar tudo, e por completo? Sendo assim, também reinvidico o direito a putaria, quem não gosta que atire a primeira pedra, rsrsr.
Em quase todos os meus trabalhos a nudez se faz presente, pois é atraves dela que organizo de forma mais honesta as minhas idéias, as minhas escolhas estéticas, filosóficas, poéticas e politicas.
Gosto de ter em cena só o essencial, então parto de uma total nudez, seja ela de ego, de roupa, de disposição, ou de alma, e aos poucos, na medida do necessário vou acrescentado o que tem de ser acrescentado.
Muitos partem do excesso, até limpar tudo. Eu sempre que possivel, parto da ausência e vou colocando aos poucos. Então no final só vai restar o que realmente importar: música, roupa, estrutura coreográfica, cenários...gosto de me colocar, ou colocar o intreprete frente a frente ao público, sem grandes recursos cênicos, porque isso deixa pouca brecha para as fugas...e eu gosto quando ambas as partes (interpretes e público) se percebem sem espaço pra fugir. É aí que a totalidade da cena pode ser vivida de fato como uma experiência única, forte e reflexiva. Somente quando abandonamos os adereços é que abrimos mão do ego!
Penso que tudo que levo ao palco tem a ver com o que sou na vida, todos nós na verdade, se você não é bem resolvido na vida, como vai ser resolvido no palco? Então tento me resolver, me entender primeiro dentro de casa (segundo um texto lido outro dia temos 5 capas: a pele, as roupas, a casa, a cidade, e o planeta. A forma como lidamos com cada uma dessas "capas" separadamente e logo em seguida juntas, é que diz o que somos, e como somos). Eu não estava errado, tudo é extensão de uma outra coisa, uma vai puxando a outra. É foda, não é? Não é um troço fácil não... Mas tudo isso é para situar um pouco quem venha ler os meus textos, ou quem possa abrir o blog e ver as fotos.
Minha nudez não é algo postiça, talvez esse seja o fato dos meus trabalhos estarem aí a tanto tempo, e ainda serem encarados com respeito e atenção. Eu vivo isso em casa com a minha mulher, abrimos a porta, e sem pensar, a primeira coisa que fazemos é tirar as roupas, e quase sempre isso não é nada sexual, ou sensual. Acho de fato o corpo humano muito bonito e eloquente; suas curvas, pelos selvagens, orifícios, suor, saliva, pulsação, veias saltadas, musculos e gordura, tudo tão íncrível! Simplesmente não consigo lidar com o corpo como se ele fosse feio, ou algo que precisa viver num mundo clandestino. Traremos então nossos corpos pra a luz? Vejam que convite mais tentador, pois uma vez saidos da escuridão, dificilmente retornaremos a ela. Não faço diferença entre os meus, os nossos "buracos", pra mim cu é igual a ouvido, todo mundo tem. A diferença é apenas funcional, e também porque nos foi imposta por questões culturais, sociais, e pasmem, por questões de opressão religiosa, que saco essa igreja! Falo da igreja, não da fé, que fique bem claro.
Eu tenho trabalhado ao longo dos úlitmos dez anos pensando até onde posso ir, ponderando, e quanto mais vou, mais descubro que posso ir, mais e mais, e assim vou descobrindo a minha forma de falar o que quero (saber o que se quer falar, ou calar é questão de sobrevivência, muito importante mesmo).
E eu quero falar não exatamente de mim, mas da minha experiência única-individual com uma vida que não tem pudores de defender o personagem real que escolheu ser.
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